América Latina como laboratório da nova extrema-direita: convergências e desafios
A ascensão de governos de extrema-direita na América Latina revela convergências regionais: alinhamento aos EUA, uso de mecanismos de exceção e neoliberalismo radical. Analisamos os desafios para projetos populares.
A ascensão de governos de extrema-direita na América Latina revela convergências regionais: alinhamento aos EUA, uso de mecanismos de exceção e neoliberalismo radical. Analisamos os desafios para projetos populares.
A ascensão de governos de extrema-direita em diversos países da América Latina não pode ser compreendida como uma simples sucessão de fenômenos nacionais isolados. Embora cada experiência possua características próprias, determinadas por sua história política, estrutura econômica e correlação de forças internas, é cada vez mais evidente a existência de um conjunto de orientações comuns que atravessam governos como os de Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no Equador, José Antonio Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Nayib Bukele em El Salvador, além das recentes vitórias eleitorais de Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru. A nova extrema-direita latino-americana combina neoliberalismo radical, conservadorismo cultural, centralização do poder político, criminalização dos movimentos sociais e forte alinhamento geopolítico aos interesses estadunidenses. Esse fenômeno regional precisa ser analisado para além das fronteiras nacionais, pois o que está em disputa não é apenas a orientação de um governo ou de outro, mas os rumos do desenvolvimento latino-americano, o papel do Estado, a soberania nacional, os direitos sociais e a própria capacidade dos povos da região de construir projetos autônomos diante das grandes potências globais.
O alinhamento geopolítico como eixo comum
Talvez o elemento mais visível que conecta esses governos seja sua política externa. Na Argentina, Javier Milei transformou o alinhamento com Washington e Tel Aviv em eixo estruturante da política externa. Seu governo aderiu ao Escudo das Américas, aprofundou mecanismos de cooperação militar, aproximou-se da OTAN como parceiro global e passou a acompanhar quase integralmente as posições dos Estados Unidos e de Israel em organismos multilaterais. No Paraguai, Santiago Peña manteve o histórico alinhamento diplomático com Estados Unidos e Israel, reforçando laços com o governo Netanyahu, apoiando posições convergentes na ONU e ampliando acordos de segurança que permitem maior presença militar estadunidense no país. No Equador, organizações populares denunciam que a soberania nacional vem sendo progressivamente subordinada aos interesses geoestratégicos dos Estados Unidos, especialmente após a declaração do conflito armado interno e a ampliação da cooperação militar com Washington.
O Escudo das Américas e a nova coordenação repressiva
Uma das novidades mais importantes do atual ciclo político latino-americano é a criação do chamado Escudo das Américas. Apresentado oficialmente como uma iniciativa de combate ao narcotráfico, ao terrorismo e ao crime organizado transnacional, o projeto estabelece mecanismos permanentes de coordenação militar, compartilhamento de inteligência e integração operacional entre os Estados Unidos e governos aliados da região. Se durante a Guerra Fria o Plano Condor serviu como instrumento de coordenação repressiva entre ditaduras militares latino-americanas sob tutela de Washington, o Escudo das Américas representa uma tentativa contemporânea de reconstrução da influência estratégica norte-americana sobre o continente por meio de governos formalmente eleitos, mas alinhados a uma mesma agenda geopolítica. Existe uma semelhança estrutural entre o Plano Condor e o Escudo das Américas: ambos os projetos partem da ideia de que a segurança hemisférica deve ser organizada sob liderança dos Estados Unidos.
Mecanismos de exceção e criminalização social
Outro traço comum é a utilização crescente de mecanismos extraordinários de poder. No Equador, o governo declarou inicialmente conflito armado interno e, posteriormente, guerra total. Na prática, isso permitiu sucessivos estados de exceção, suspensão de garantias constitucionais, ampliação dos poderes presidenciais e fortalecimento do papel das Forças Armadas na vida civil. Em El Salvador, o regime de exceção implantado em março de 2022 permanece em vigor após sucessivas renovações. Mais de 85 mil pessoas foram presas nesse período. Organizações de direitos humanos relatam constantemente milhares de detenções arbitrárias, centenas de mortes sob custódia estatal e denúncias sistemáticas de tortura. Na Argentina, o DNU 70/2023 e, posteriormente, a Lei Bases permitiram uma profunda reestruturação institucional por meio da concentração de poderes no Executivo e da flexibilização de diversos controles democráticos tradicionais.
A promessa de combate ao crime é uma das principais bandeiras da nova extrema-direita latino-americana. Entretanto, em diversos países, organizações populares denunciam que os instrumentos criados para combater a criminalidade acabam sendo utilizados também contra setores organizados da sociedade. No Equador, denúncias de desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais e perseguição política atingem principalmente populações indígenas, afrodescendentes e organizações populares. Em El Salvador, o regime de exceção tornou-se também instrumento de criminalização do protesto social. Na Argentina, movimentos sindicais e organizações populares denunciam repressão crescente, vigilância digital e perseguição de lideranças opositoras. No Paraguai, organizações camponesas apontam processos judiciais seletivos e perseguição a dirigentes rurais.
Neoliberalismo radical e concentração de riqueza
No campo econômico, a convergência é igualmente visível. Na Argentina, o governo Milei promoveu privatizações, fechamento de órgãos públicos, redução de ministérios, cortes em programas sociais e desfinanciamento de áreas estratégicas como saúde, educação e habitação. A Lei Bases e o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI) representam talvez a expressão mais acabada dessa estratégia. Grandes investidores passaram a receber benefícios tributários, cambiais e regulatórios extraordinários, especialmente nos setores de mineração, energia, hidrocarbonetos e infraestrutura. No Chile, os primeiros meses do governo Kast foram marcados por um amplo pacote de flexibilizações regulatórias, desregulamentação ambiental e incentivos ao grande empresariado. Simultaneamente, medidas econômicas contribuíram para o aumento do custo de vida. A retirada de mecanismos de estabilização dos combustíveis elevou preços de energia e transporte, enquanto o salário mínimo registrou sua primeira estagnação em um ano. No Paraguai, a manutenção do modelo agroexportador e da concentração fundiária segue como marca central do governo, com o país continuando a apresentar uma das distribuições de terra mais desiguais da América Latina.
Desafios para os projetos populares
A nova extrema-direita latino-americana surge em um momento de profundas transformações da ordem internacional. Os Estados Unidos seguem sendo a principal potência militar e financeira do planeta, mas enfrentam contradições cada vez mais visíveis. Possuem a maior dívida pública do mundo, acumulam déficits crescentes, enfrentam uma polarização política sem precedentes recentes e convivem com questionamentos cada vez mais amplos sobre sua capacidade de liderança global após décadas de guerras, sanções e intervenções militares. Ao mesmo tempo, o mundo se torna progressivamente multipolar, com a ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS e a busca de diversos países por maior autonomia estratégica. A adesão de governos como os de Milei, Noboa, Bukele e Peña revela que a extrema-direita latino-americana não atua apenas como fenômeno nacional. Ela também opera como parte de uma rede internacional articulada politicamente em torno de fóruns conservadores, cooperação militar, alinhamentos diplomáticos e interesses econômicos compartilhados.
Perguntas Frequentes
O que é o Escudo das Américas?
É uma iniciativa de coordenação militar entre os Estados Unidos e governos aliados da região, apresentada oficialmente como combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional.
Quais governos fazem parte dessa nova extrema-direita latino-americana?
Incluem Javier Milei (Argentina), Daniel Noboa (Equador), José Antonio Kast (Chile), Santiago Peña (Paraguai), Nayib Bukele (El Salvador), além das recentes vitórias de Abelardo de la Espriella (Colômbia) e Keiko Fujimori (Peru).
Como a política econômica desses governos se assemelha?
Todos promovem privatizações, desregulamentação ambiental e incentivos a grandes investidores, com cortes em programas sociais e aumento do custo de vida.
O que aconteceu em El Salvador com o regime de exceção?
Implantado em março de 2022, o regime permanece em vigor, com mais de 85 mil presos e denúncias de detenções arbitrárias, mortes sob custódia e tortura.
Como esses governos tratam movimentos sociais?
Organizações populares denunciam criminalização do protesto social, repressão crescente, vigilância digital e perseguição a lideranças opositoras em vários países.
Sofia Mendes Carvalho
Análises independentes sobre maquininhas, pagamentos e empreendedorismo no Brasil. Conteúdo editorial sem viés comercial.
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