Quando as propostas se calam, os ataques falam: análise
Em vez de propostas, eleições viram palco de ataques. Críticas são necessárias, mas quando só desqualificam, quem perde é o debate público e o cidadão.
Em vez de propostas, eleições viram palco de ataques. Críticas são necessárias, mas quando só desqualificam, quem perde é o debate público e o cidadão.
Toda eleição deveria ser uma oportunidade para conhecer ideias. Sonhos possíveis para a cidade, o estado ou o país. Mas, a cada processo eleitoral, o discurso parece caminhar na direção contrária: em vez de propostas de construção, boa parte do tempo é usada para tentar destruir a imagem de quem está do outro lado.
Quando isso acontece, alguma coisa se perde. A discussão deixa de olhar para o futuro e passa a revirar o passado do adversário. Não queremos dizer que críticas sejam dispensáveis. Uma democracia saudável vive de fiscalização e cobrança permanente. Uma crítica responsável revela erros, fortalece instituições e melhora governos.
O problema começa quando a crítica deixa de esclarecer e passa a desqualificar. Quando o objetivo não é convencer pela competência, mas vencer pelo desgaste do adversário. Nesse momento, quem perde não é só o alvo dos ataques. O cidadão, muitas vezes esquecido no meio da disputa, fica tentando descobrir em quem acreditar, sem ouvir o que cada candidato pretende fazer.
Há outra preocupação: quando parte da comunicação abandona a missão de informar e age como torcida. Jornalismo não nasceu para fabricar inimigos, mas para ajudar a sociedade a compreender os fatos. Quando comunicadores e influenciadores transformam seus espaços em instrumentos de ataque ou defesa incondicional, a informação perde espaço para o interesse. Quem paga a conta é o debate público.
Talvez seja hora de fazer uma pergunta diferente durante a eleição. Em vez de perguntar quem atacou melhor, devíamos perguntar: qual proposta é mais sólida? Governos não são eleitos para colecionar adversários. Uma sociedade amadurece quando escolhe seus representantes pela qualidade das ideias e pela capacidade de transformá-las em realidade, não pelo tamanho dos ataques. É disso que uma eleição deveria tratar, não da quantidade de inimigos destruídos no caminho.
Heloísa Brandt
Análises independentes sobre maquininhas, pagamentos e empreendedorismo no Brasil. Conteúdo editorial sem viés comercial.
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